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Iraque : Um povo martirizado

O estudo de certos indicadores de saúde permite avaliar o bem estar
de uma população de uma forma muito segura. No que respeita ao
Iraque o estudo comparativo destes em três momentos chave pode dar
uma ideia das condições de vida da população iraquiana desde a
primeira guerra do golfo em 1990.
Escolheram-se dados relativos a 1989, dando conta da situação
sanitária do país antes da Guerra do Golfo, a 1996 o ano anterior ao
lançamento do programa “Petróleo por Alimentos” e a 2001 que ilustram
a situação prévia à Guerra desencadeada em Março deste ano.
Antes de Agosto de 1990, o sistema de saúde do Iraque assentava numa
rede de cuidados de saúde que cobria 97% da população urbana e 79% da
população rural. Segundo a OMS existiriam 135 hospitais gerais, 1055
centros de saúde e 52 centro especializados. Embora o sistema
funcionasse priveligiando os cuidados curativos um programa de saúde
pública assegurava o controle de doenças como a malária, a
tuberculose e promovia a vacinação contra as doenças evitáveis.

Estas situação alterou-se drásticamente depois de 1990. Os anos mais
dificeis foram os da primeira metade da década de 90 mercê do duro
embargo então imposto e cujas mais gravosas consequências recairam
sobre a população. Com o inicio do programa “Petróleo por Alimentos”
em 1997 a situação melhorou um pouco se bem que não se voltasse mais
a atingir o nivel sanitário que existia antes da guerra.
A taxa de mortalidade infantil um bom indicador da situação de
desenvolvimento sócio-económico de um pais não deixa dúvidas sobre o
retrocesso verificado. Em 2001 situava-se em 107 º/00 mais do dobro
da verificada em 1989. (-Para termos uma ideia) Em termos
comparativos basta pensar que em Portugal a taxa de mortalidade
infantil foi em 2001 de 5,6 º/00. Se considerarmos o grupo etário dos
menores de 5 anos a situação piora ainda com valores duas vezes e
meia acima dos verificados antes da primeira Guerra do Golfo.
A OMS estima que entre 1990 e 1997, os anos mais duros do pós-guerra
para o povo iraquiano, apenas 10 a 15% das necessidades de saúde da
população foram cobertas pelo orçamento de estado, que se contraiu
então drásticamente.
Um dos sectores mais afectados pelo corte de recursos depois da
guerra foi o do tratamento de águas. O acesso à água potável sofreu,
sobretudo nas áreas rurais, um decréscimo brutal passando dos 75%
antes da guerra para 44%. Muita da água utilizada pela população
passou a ser retirada directamente dos rios e utilizada sem qualquer
tratamento. Como resultado verificou-se um aumento brutal das doenças
transmitidas pela água como sejam a disenteria, as hepatites virais e
as gastroenterites. Em 1997 os sistemas de tratamento de água estavam
a trabalhar ainda apenas a 40% das suas capacidades.

Quadro I- Taxas de incidência de doenças transmissiveis pela água
(x100.000 habitantes)
1989 1999 2001
Hepatites virais 9,93 136,7 40,28
Disenteria 107,3 2492,2 2477,5
Giardiase 401,6 2681,8 2140,7

Em 1997 apenas um quarto do equipamento médico existente no Iraque
estaria funcional. As carências de toda a ordem nomeadamente de
antibióticos de primeira linha e outros medicamentos essenciais,
aliada à enorme carência de meios auxiliares de diagnóstico, como
reagentes quimicos para análises, e de equipamento cirúrgico está
patente quando se comparam os números relativos às grandes cirúrgias
e à actividade dos laboratórios nestes periodos.

Quadro II - Actividade cirúrgica e laboratorial
(médias mensais)

1989 1996 2002
Laboratórios (média mensal) 1494050 500036 640722
Grandes cirurgias(média mensal) 15125 4417 6750

A situação também melhorou neste campo de actividades com a chegada
do programa “Petróleo por Alimentos”, mas com se pode observar pela
leitura do quadro acima, os niveis de antes da guerra não voltaram a
ser atingidos. O mesmo se pode dizer dos programas de medicina
preventiva, que tiveram também uma melhoria significativa, mas que
não foi suficiente para evitar graves epidemias como a de
poliomielite ocorrida em 2001.
Devido à carência de recursos, estes programas de vacinação sofreram
um forte impacto após o começo do embargo, deixando de abranger um
grande número de crianças. Deste abrandamento resultou o crescimento
de algumas destas doenças evitáveis, por queda da imunidade de grupo.
A OMS consciente desta enorme falha, após a epidemia de poliomielite
registada em 2001, desenvolveu uma campanha de vacinação em massa
contra esta doença.

A evolução dos números relativos à tuberculose, doença muito
associada à pobreza e a evolução verificada nos casos registados de
malnutrição por carências proteicas e vitaminicas ou no número de
crianças com baixo peso à nascença, não deixa lugar a dúvidas sobre
as dificuldades que atingiram na última decada a população iraquiana.

Quadro III - Outros indicadores de saúde

1989 1996 2002
Peso à nascença
inf. a 2,5 kg
(x100000 hab.) 4.5 (1990) 22.60 23.96
Malnutrição(carências
vit. e proteicas) 96809 1802112 1765244
Tuberculose
(x100000 hab.) 78,50 133,90 43,30

A chegada de antibióticos e medicamentos essenciais como por exemplo
os usados no tratamento do cancro continuou a ser muito irregular
mesmo após 1997. Segundo dados da UNICEF 1 em cada 8 crianças morre
antes de atingir os cinco anos de idade. Um terço sofre de
malnutrição e apenas um quarto tem acesso a àgua potável. As doenças
das vias respiratórias e as transmitidas pela água (-não tratada), de
fácil tratamento com os meios adequados hoje disponiveis, continuaram
a ser as grandes responsáveis pela elevada mortalidade nos segmentos
mais jovens da população.
Depois da intervenção militar de Março deste ano todo este trágico
cenário ter-se-á agravado de uma forma que não é possivel avaliar por
enquanto com detalhe. No entanto foram já relatados surtos de
gastroenterite e (-possivelmente) (+casos) de cólera (Bashra)
decorrentes da quase total destruição da rede de abastecimento de
águas.
A enorme quantidade de bombas não explodidas dispersas por áreas
urbanas e rurais tem afectado principalmente crianças que a todo o
momento chegam às urgências dos hospitais mutiladas, conforme referem
os comunicados das organizações humanitárias já presentes no terreno.
Com a rede de comunicações destruída e sem abastecimento de energia
eléctrica e água potável, a maioria dos hospitais continuam
paralisados ou atendem apenas urgências. Nesta situação de caos
instalado, é possivel que se assista ao desenvolvimento de surtos
epidémicos graves nos próximos tempos.
O sofrimento das populações de que apenas os relatórios de
organizações como a OMS ou a UNICEF vão dando conta é seguramente
muito grande.
Com uma enorme população de jovens e crianças, mais de metade da
população do Iraque é constituída por individuos com menos de 15 anos
de idade, é o futuro do país que se encontra irremediavelmente
afectado. A longo prazo, as cicatrizes deixadas pelas guerras,
embargos e agressões, de que estão a ser vitimas desde há mais de uma
década, não deixarão de se fazer notar.

José António Antunes
(médico interno de Saúde Pública)
email: setuan@megamail.pt

Fontes: OMS www.who.org
UNICEF www.unicef.org

A BATALHA #199 (13/07/03

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Solidarité internationale
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Fédération internationale des réfugiés irakiens
Yanar Mohammed
Solidarité Irak
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Houzan Mahmoud
Stéphane Julien
Olivier Théo
Falah Alwan
Bill Weinberg
Organisation pour la liberté des femmes en Irak
Mansoor Hekmat
Azar Majedi
SUD Education
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Parti communiste-ouvrier du Kurdistan
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